Trabalhos Especiais

"Santô e os pais da aviação"

O homem que queria voar

SITE OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA (21 DE NOVEMBRO DE 2005)

Santô e os pais da aviação – A jornada de Santos-Dumont e de outros homens que queriam voar, de Spacca, 160 pp., Companhia das Letras, São Paulo, 2005; R$ 39,00; lançamento e exposição de originais no sábado, 26/11, na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915 – Vila Madalena, São Paulo/ SP), a partir das 15h.

Livro Spacca

Em 23 de outubro, o primeiro vôo do 14-Bis completou 99 anos. Em clima de comemoração, o ilustrador e cartunista paulistano Spacca publica uma história em quadrinhos sobre a vida de Santos-Dumont (1873-1932). Envolvido com o projeto do Santô há décadas, o autor conta alguns detalhes desses anos de trabalho.

De onde surgiu a idéia do livro?
Spacca – A princípio, quis contar a história de Santos-Dumont por uma ótica nacionalista, para mostrar que os irmãos Wright não mereciam a glória de ter inventado o avião. Com o tempo e as pesquisas, fui me convencendo de que o avião foi uma espécie de invenção coletiva, e que os pioneiros se influenciaram mutuamente. Gostei de descrever essa “Babel” de inventores, um de cada país, perseguindo o mesmo sonho. E acho que esse ponto de vista é novo para o público brasileiro, que sempre quer ser o campeão do mundo.

Como foi o processo de criação?
Spacca – Durante muitos anos (desde 1979), desenhei o personagem e comprei livros relacionados ao tema e à época. Quando decidi fazer uma história em quadrinhos, trabalhei para dar forma dramática e divertida ao roteiro, mantendo fidelidade aos fatos. Só com o roteiro pronto é que procurei a editora. Foi difícil descobrir uma motivação para Santos Dumont à altura da trajetória dos Wright (que eram pobres; é mais fácil torcer por um herói pobre…). Transformei a facilidade inicial de Santos-Dumont – que recebeu todas as condições para se dedicar exclusivamente aos seus aparelhos – em uma espécie de missão pesada, um fardo que o pai poderoso transmitiu a ele pouco antes de morrer. Como os Wright também tiveram um mártir inspirador, o Otto Lilienthal, estruturei o livro nessas duas histórias paralelas, que vão se cruzando e articulando, enquanto o mundo se encaminha para a Primeira Guerra Mundial.

Você se inspirou em algum trabalho específico?
Spacca – As influências são inúmeras: assisti muito making of de filme para aprender a estruturar uma história. Por exemplo, o tom da amizade de Santô com o cartunista Sem foi inspirado no filme Jules et Jim, de Truffaut; outras vezes eu pensava em Spielberg, Zemeckis e outros cineastas. O personagem Jacinto de Tormes de A cidade e as serras, de Eça de Queiroz, inspirou em parte o meu Santô. Nos quadrinhos, peguei alguma coisa de Carl Barks (o inventor do Tio Patinhas), por exemplo, o uso de silhueta e nuvens com sombras negras, e também de Uderzo (Asterix), Morris (Lucke Luke) etc. E tenho ainda lembranças da fazenda de café que meu avô administrava, onde eu passava férias quando criança.