Trabalhos Especiais

"Santô e os pais da aviação"

Síndrome de originalidade

O ESTADO DE S. PAULO (4 DE DEZEMBRO DE 2005)

Daniel Piza

É comum ouvir que o Brasil, pelo território, idioma e composição étnica, tem uma “obrigação de originalidade” ou, na expressão dos acadêmicos, uma “singularidade” como país, uma espécie de lugar reservado entre os grandes, uma contribuição única a dar ao mundo – que já começou a ser dada e tem muito mais ainda. Tal discurso, não por acaso, mistura o complexo de superioridade e o de inferioridade; na velha discussão sobre se o brasileiro é pessimista ou otimista, as duas correntes estão erradas. O brasileiro vive numa gangorra emotiva, e quanto mais ela oscila mais essa suposta obrigação distrai e trava sua psique. Originalidade, afinal, pode ser interpretada de várias maneiras. Dou como exemplos alguns livros, sobre diferentes períodos históricos, que acabam de ser lançados por aqui.

Em Império à Deriva (Objetiva), Patrick Wilcken, jornalista australiano radicado na Inglaterra, faz boa narrativa de um contexto histórico completamente original: a transposição de uma corte para sua colônia. Descreve, sem trazer novidades, mas de forma clara e viva, o período em que a aristocracia portuguesa se instalou no Rio de Janeiro a partir de 1808. Diz, por exemplo, que a corrupção característica da corte de Dom João assumiu “uma forma concentrada” no Rio. “O afluxo repentino de milhares de burocratas exilados criou um terreno fértil para os abusos (…). O roubo em nome da Coroa disseminou-se à larga.” Essa “imensa estrutura burocrática enxertada numa modesta base colonial”, em que os ricos “desenvolveram um horror ao trabalho braçal”, acrescento eu, criou também uma realidade marcada por contrastes anacrônicos, convenientemente acobertados pelos costumes. Não é à toa que Dom Pedro II, como Lula e tantos outros governantes futuros, sonhava conciliar contrários da forma menos trabalhosa possível.

Às vezes o principal inimigo da originalidade é essa sua obrigação. Gostei muito de Santô e os Pais da Aviação, de Spacca (Cia. das Letras), não só porque o desenho e o enredo fazem uma bela HQ, funcionando como “storyboard” de um longa-metragem que basta dinheiro para filmar, mas também porque ele não cai no ufanismo do “pai da aviação”, no singular, e deixa claro como o avião foi resultado da competição de uma série de inventores em países diferentes. Escrevi isso uma vez, e os patrioteiros vieram patrulhar. Na abrangente pesquisa de Spacca, os irmãos Wright não são agentes do imperialismo americano que querem roubar a primazia brasileira; Santos-Dumont tampouco é o ingênuo inimigo das patentes e o “criador” do relógio de pulso. Ao mesmo tempo, o livro o celebra como um tecnólogo de gênio, original em sua combinação de técnica e estilo – e por isso mesmo merecedor de todas as honras nacionais.

O mito da originalidade coletiva brasileira não surgiu com a publicação de Casa Grande & Senzala em 1933, mas deu um grande salto com ele. Em Gilberto Freyre – Um Vitoriano dos Trópicos (Unesp), a historiadora Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke mostra o papel das idéias da antropologia anglo-americana em sua defesa da mestiçagem brasileira. Até então, a mescla entre brancos e negros era vista como importante para “branquear” a população, segundo um racismo velado que continua firme e forte na atualidade. Freyre implantou o conceito de que o Brasil é uma “democracia racial” em potencial, dono de uma vocação para esse regime inerente a suas condições étnicas. O modelo da acomodação que encontrou nos liberais vitorianos como Carlyle foi transplantado para a célula “familiar” do engenho nordestino. Às avessas, acabou incorrendo no mesmo equívoco: o de colocar a questão racial como determinante. A originalidade brasileira já estaria preparada em sua índole afetiva; era como se o uso das escravas como objeto sexual pelos senhores de terra pudesse dar base sólida para nova forma de civilização.

Ao folhear o lindo livro de fotos de José Medeiros, Olho da Rua (Aprazível Edições), assim como ao ver o documentário Vinicius (já em CD, com as belas interpretações de Mônica Salmaso, Yamandú Costa e Caetano Veloso) ou ler as memórias de Danuza Leão, há uma sensação de que especialmente aquele Rio dos anos 50 viveu e simbolizou o sonhado equilíbrio entre doçura e modernidade, construindo o futuro e ao mesmo tempo comungando com a natureza – o projeto original do Brasil. São os tempos da bossa nova, de Niemeyer e Burle Marx, de grandes escritores e pintores, de Pelé e JK, da união do popular com o sofisticado. Mas esses “híbridos” expressam pessoas e movimentos originais, não um projeto consensual de originalidade – não uma utopia tornada real para a grande maioria. Manifestações criativas não traduzem necessariamente as virtudes de uma nação. A espontaneidade que pode ser boa para o futebol, por exemplo, pode ser desastrosa para a política…

Já vi dizerem que o brasileiro nasceu para isto, que foi feito para aquilo, que “a nossa” é driblar intuitivamente como Garrincha ou viver desregradamente como Vinicius (dois talentos que, significativamente, poderiam ter mantido a excelência por mais tempo); que o brasileiro não sabe fazer ciência, tecnologia, pensamento abstrato. Por que uma coisa precisa eliminar a outra? Sem querer, ratifica-se a imagem do Brasil como um país incapaz de certas coisas; Oswaldo Cruz, Mário Schemberg, o Projeto Genoma seriam exceções que confirmam a regra. É como se a visão da identidade precisasse excluir a complexidade, como se a originalidade fosse mais uma dádiva que uma conquista. Singular, de fato.