Trabalhos Especiais
Altos vôos
JORNAL DO BRASIL (5 DE DEZEMBRO DE 2005)
Este é um sério concorrente ao troféu de melhor lançamento brasileiro do ano: Santô e os pais da aviação, do cartunista Spacca (Cia. das Letras, 168 págs., R$ 39). Spacca tem 41 anos e uma bibliografia de quadrinhos aquém do seu talento. O grande público praticamente só conhece suas histórias publicadas na revista do Níquel Náusea (onde, em dezembro de 1989, saiu a primeira HQ sua com o personagem Santô, que deve ser considerada um esboço muito rudimentar do presente álbum).
Spacca mexeu até com animação em priscas eras, mas tem-se destacado mais na ilustração e na charge, com o que tem arrebatado vários prêmios. Quadrinhos faz poucos, sem muita regularidade. Tirando uma ou outra história na revista alternativa Front , é difícil ver HQ dele por aí. Mas já andaram até espalhando o boato de que o personagem Bum de Fora, do Cartoon Network, foi pirateado de um desenho seu.
Agora Spacca dá vôos mais altos com essa belíssima biografia de Santos Dumont. Sua obsessão pelo pai da aviação vem da adolescência. Pesquisou tanto, que virou especialista. Se ainda existisse aquele programa do J. Silvestre, ele faria mais bonito que a Noivinha da Pavuna. O melhor de tudo é que dedicou as horas vagas de vários anos de sua vida a este álbum em quadrinhos, onde conta tudo.
São 144 páginas de HQ em belos meiostons, mais uma página dupla com um pôster da Paris de cem anos atrás e um adendo com cronologia e referências bibliográficas. Dá pra ser adotado em qualquer escola. A história é um primor. Vai desde a adolescência de Santos Dumont até sua morte. Mas se concentra mais nas andanças por Paris, onde fez o célebre vôo do 14- Bis que o colocou na História. Todos os balões e aviões construídos por Dumont e seus primeiros vôos são minuciosamente descritos. Até a origem do chapéu amarrotado é desvendada.
Outro personagem quase tão importante na história é o cartunista George Goursat, que assinava Sem. Dumont apaixonou-se por uma caricatura que Sem fez dele e tornaram-se amigos para o resto da vida. Era comum ver os dois bebericando pelos bares de Paris. Os maldosos sugerem que Sem e Dumont tiveram um caso homossexual, mas Spacca não desce a esses pormenores. Apenas sugere uma amizade ambígua como a de Jules e Jim de Truffaut, só que sem a Jeanne Moreau.
Outro importante aspecto do livro é a abordagem não nacionalista. Santô não é só sobre Santos Dumont, fala de todos os outros pais da aviação contemporâneos, incluindo os Irmãos Wright, que os americanos juram que inventaram o avião antes de Santô. Spacca não dá importância a “quem fez primeiro”. Prefere, sim, abordar o cotidiano parisiense e outras figuras importantes da época. Até a exilada Princesa Isabel faz uma ponta, dando uma medalhinha de São Benedito pra dar sorte.
O roteiro é irretocável e se alguém quiser transformar Santô num filme nem precisa roteirizar, é só usar a HQ como storyboard.
