Trabalhos Especiais

"Santô e os pais da aviação"

Na esteira do vôo centenário

JORNAL DO BRASIL (22 DE DEZEMBRO DE 2005)

Experiência com o 14 Bis faz 100 anos em 2006 e Santos Dumont é lembrado em exposições, documentários e história em quadrinhos

14-BIS
O 14 bis, centenário

Ninguém, antes dele, fez igual. Assim mesmo os brasileiros levaram 100 anos para comemorar o vôo do 14-Bis sobre o Campo de Bagatelle, em Paris, a 80 metros do chão durante 21 segundos, diante de 300 pessoas. Até o centenário do vôo, a 23 de outubro do ano que vem, Santos Dumont vira fetiche em forma de selos, fantoches, pratinhos, broches, maquetes transformadas em abajur, conferências, documentários, ficções. A Força Aérea recebeu 600 projetos. Fora os independentes, como o primeiro álbum em quadrinhos do herói de chapéu de abas, terno de listras e colarinho tão engomado que o cartunista paulista Spacca relutou em desenhar seu pescoço nu. O título é Santô.

Com jeito de dandi e corpo de jóquei no ar, Santô é uma delícia visual para qualquer idade. Spacca trata de todos os tabus. Não mostra o herói pendurado num chuveiro amarrado às duas gravatas, como aconteceu em 1932, mas menciona o suicídio no banheiro do hotel La Plage, em Guarujá, depois de uma crise de depressão. Tinha 59 anos, aparentava 80, e fica a dúvida se o que o matou foi o horror da esclerose múltipla ou o desespero de ver o uso bélico de sua invenção. De qualquer forma, o último quadrinho dá a Santô um fim lírico. Num balão, o filho do rei do café Henrique Dumont aprende o caminho das estrelas.

E a disputa pela invenção com os americanos Irmãos Wright? Spacca não esconde nada sobre outros homens que queriam voar e na epígrafe deixa a dúvida num trecho da carta de Wilbur Wright, escrita em 1900: ”O problema é grande demais para um homem resolver sozinho, em segredo e sem ajuda”.

A homossexualidade está expressa na carta de despedida de Santos Dumont (”amei homens e mulheres, sou macho e fêmea, no coração e na mente, não me foi dado o bem ou o mal de saber dividir categorias tão complementares”), e implícita na amizade com o cartunista SEM, a quem ele confessa:

- Com meia dúzia de riscos você me capturou.

Também nas provocações da vida parisiense, onde o escritor Jean Lorrain, declaradamente homossexual, encontra-se com SEM e diz:

- Aí está você com seu pequeno pássaro…

Spacca rejeitou os estereótipos de biografias onde Santos Dumont aparece tricotando num quarto com o céu cheio de anjos.

- Questiono tudo isso – diz Spacca, 41 anos. – A paixão dele era uma só, máquinas.

Cartunista da imprensa diária, Spacca levou um ano para conceber e finalizar ”Santô” correspondendo-se com especialistas, parentes e descendentes de ex-colaboradores de Santos Dumont. Ao citar os romanos aproveita para homenagear um de seus desenhistas prediletos, Uderzo, inventor de Asterix. E faz reverência ao mítico Will Eisner, pai da graphic novel, ao desenhar mendigos apedrejando o aeroclube que negou o premio a Santos Dumont, alegando um atraso de 40 segundos.

Um metro e meio altura, tão excêntrico que costumava jantar no Maxim’s bordo do balão número 9 que amarrava feito cavalo, como Spacca registra, Santô agradava à alta sociedade e aos pobres de Paris. O premio que ganhou ao contornar a Torre Eiffel, em 30 minutos e 30 segundos, derrotando o conde Zepelim da Alemanha, distribuiu entre os mecânicos e o chefe da polícia. Instruíu-os a resgatar das casas de penhor as ferramentas empenhadas pelos trabalhadores.

Era supersticioso dos pés à cabeça. Tinha pânico do número 8 – a numeração de seus balões salta de 7 para 9 – e jamais voava no oitavo mês. Tinha razão: o acidente que quase o matou aconteceu dia 8 de agosto, e o quarto do hotel onde se enforcou, tinha o número 152, que somava 8.

- Acabei eu mesmo ficando com essa mania – confessa Spacca.

Boa parte das lendas sobre o aviador o cartunista aboliu. Por exemplo, o avião Condor lotado de jornalistas e políticos que vinham saudar seu regresso ao Brasil, em 1928, e caíu no mar matando todos os passageiros. O avião que Blériot batizou de Santos Dumont, depois de sua morte e que também caiu, matando o piloto. E os Mamonas Assassinas, que morreram no ar depois de dedicar um CD ao pai da aviação.

A má fama quase afetou o filme do paraibano Marcone Simões, , orçado em R$ 17 milhões. Foca os dez anos em que Santos Dumont realizou o sonho de Ícaro e inventou o relógio de pulso fabricado por Cartier com seu nome, o selim de bicicleta, o hidroplano deslizando sobre o Sena. O longa decola em 2007, cheio de romance, espionagens, sabotagens. Mas no ano que vem Simões faz uma prévia com o projeto de R$ 1,3 milhão, Ares Nunca Dantes Navegados: são conferências, exposições, maquetes e móbiles do 14-Bis com vinhetas e o salto tecnológico de Santos Dumont, além de um site na Internet.

Os brasileiros ainda vão ver O homem pode voar, documentário de 75 minutos de Nelson Hoineff, com 16 minutos inéditos pesquisados na Gaumont, Pathé, Smithsonian. Custou R$ 800 mil.

Em quadrinhos, móbiles, maquetes, filme ou seriado de TV, chegou a hora de o mundo inteiro experimentar aquilo que Santos Dumont exprimiu sobre seu avião levíssimo, fabricado com madeira, bambu e seda japonesa:

- Os pássaros devem experimentar a mesma sensação quando as suas longas asas e o seu vôo fecha o céu. Ninguém, antes de mim, fizera igual.