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Iniciação à Advocacia I: A Estruturação do Escritório

Jarbas Andrade Machioni

É comum a pergunta em faculdades de Direito, como iniciar-se na profissão, o que ler, quais caminhos etc. Vou tentar passar um pouco de experiência minha e de colegas, fruto de conversas, observação e troca de informações ao longo dos anos.

A carreira da advocacia privada é, majoritariamente, ainda constituída de pequenos e médios escritórios. Escritórios com mais de dez pessoas são estatisticamente raros no país.

Nessa senda, o sucesso profissional dependerá somente do desempenho do advogado iniciante. Gerações de advogados renovam-se, poucos são os que herdam. A esmagadora maioria dos escritórios não foram herdados e grande parte dos que foram herdados e ainda continuam sofreram modificações, seja para amplia-los, seja para alterar o perfil da clientela etc.

Na verdade, o mercado é grande e está aí para ser conquistado como lembrou o douto advogado Ricardo Tosto do prestigioso escritório Leite, Tosto e Barros em palestra na OAB-SP.

O que o advogado jovem tem de buscar, principalmente, para galgar uma advocacia de sucesso são duas coisas básicas: formar clientela e formar o seu capital teórico (leitura e estudo de obras jurídicas, absorvendo conceitos e categorias júridicas).

Todo escritório precisa de uma “espinha dorsal” de clientela, ou seja, o fluxo mínimo que mantém o escritório funcionando, pode ser uma ou mais empresas no sistema de advocacia de partido; pode ser uma advocacia de administração de bens, uma profunda especialização como telecomunicações, junta comercial, registro de imóveis, mercado de capitais etc. Formada essa base, poderá ele ir aumentando a sua clientela, seja através de indicações de outros advogados (muito mais importante do que a maioria imagina), relacionamento profissional (networking, para usar uma palavra da moda), ou indicação dos próprios clientes.

Essa deve ser a preocupação básica de quem monta um escritório. Inicialmente sugiro a associação com outros colegas, mas na forma do que, no jargão do mercado, é conhecido “sociedade de despesas”, ou seja, partilham-se somente custos e cada um tem sua clientela, associando-se apenas em alguns casos. Essa associação é útil para troca de experiências, discussão de assuntos, além da óbvia diminuição de custos. Abrir o escritório sozinho é muito mais complicado e deve ser bem pensado.

Outra alternativa é iniciar-se associando-se a escritórios já constituídos, com objetivo de adquirir experiência, enquanto forma sua própria clientela. O escritório já constituído pode também ajudar em muito o advogado iniciante encaminhado casos, e auxiliando-o a constituir sua carteira de clientes.

Formar clientela e posicionar-se no mercado são ações que exigem do profissional um estudo e planejamento estratégico que devem, sempre, seguir os preceitos éticos da profissão. Um advogado sem ética irá assustar os clientes e rapidamente criará má-fama entre os colegas, sua advocacia será sempre limitada e não terá longa duração.

Por outro lado, criar o capital teórico é essencial. A leitura e comparação de textos, a comunicação por escrito, ou mesmo oral, forma o dia-a-dia da profissão; é preciso ler e escrever bem, com consistência e clareza.

Bons cursos de português e redação são sempre aconselháveis; ter à mão dicionários de qualidade para profissionais como “Caldas Aulete” ou “Cândido Figueiredo” é indispensável. Sugiro também o livro “Questões Vernáculas”, de Napoleão Mendes de Almeida (que mantinha o melhor curso de português do país, e por correspondência!).

Deve o advogado, também, manter uma boa obra de Gramática. A leitura dos clássicos como Ruy Barbosa ou Padre Vieira é aconselhável, não para o profissional escrever ou falar como eles, isso não! Mas pode-se deles tirar lições muito úteis de como abordar um assunto, como efetuar uma colocação de problema ou criar figuras muito expressivas.

O advogado conseguirá destaque na profissão principalmente pela sua criatividade e solidez das soluções jurídicas que encontrar nos casos sob seus cuidados. Esse pode ser o grande diferencial do advogado.

Nesse sentido, remeto ao leitor às duas histórias que conto sobre o tributarista Rubens Gomes de Souza (autor do Código Tributário Nacional) e Alfredo Becker sobre os fatos que deslancharam suas carreiras, que conto no Blog do Advogado, nesta revista (aba Histórico, pasta /2007)

Para isso, a leitura é essencial. No próximo artigo da série, irei tratar da formação da biblioteca básica e das leituras para formar um profissional diferenciado.

Jarbas Andrade Machioni, 45 anos, advogado, é sócio do escritório Machioni e Braga Advogados. Formado em direito pela FMU em 1980, especializou-se em direito empresarial no Mackenzie. É presidente da Comissão de Assuntos Institucionais da OAB-SP, vogal substituto na Junta Comercial do Estado de São Paulo e vice-presidente-executivo do Conselho Consultivo do Tribunal Arbitral do Comércio na Junta Comercial do Estado de São Paulo.