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Brasil Econômico

Licitações de obras dobram no 1º semestre

Arrecadação em alta e ano eleitoral explicam crescimento de 95% dos certames

Governantes das mais variadas esferas do poder pavimentam os rumos do segundo semestre de 2010, início oficial do período de campanha eleitoral para o pleito de outubro. Com alta de arrecadação de tributos, a quantidade de licitações de obras de construção civil (edificações e reformas de imóveis) praticamente dobrou entre 1º de janeiro e 30 de junho de 2010, de acordo com levantamento exclusivo realizado pela empresa Conlicitação para o Brasil Econômico. A empresa especializada em publicidade de licitações monitora diariamente 152 diários oficiais, 445 boletins e informativos de prefeituras, 183 jornais de grande circulação e 1.394 sites governamentais.

No primeiro semestre de 2010, foram divulgadas 19.058 licitações de obras feitas por prefeituras, governos estaduais e principalmente pelo governo federal. No mesmo período de 2009, em que houve queda de 44% em licitações em relação a 2008, só foram divulgados 10.022 certames de construção civil.

O lançamento de licitações de obra sempre cresce em ano de eleição, de acordo com o levantamento da Conlicitação. Em 2006, a quantidade de editais de obras de edificações divulgados no primeiro semestre dobrou (alta de 101%), para 10.250 certames iniciados no período, após uma queda de 23% nesse intervalo de 2005 sobre 2004.

Este ano também aumentou o lançamento de editais na área de infraestrutura urbana, com obras de pavimentação e construção de pontes, como acontece em todo ano eleitoral desde pelo menos 2004, início da série histórica da pesquisa da Conlicitação. As licitações de infraestrutura cresceram 146% no primeiro semestre do ano, depois de uma queda de 60% no mesmo período de 2009.

De maneira geral, as licitações, de todos os tipos possíveis, cresceram 20% na primeira metade do ano, ou 367.375 concorrências. Além do interesse eleitoral de lançar o maior número de obras antes do segundo semestre, já que desde 3 de julho nenhum candidato à eleição pode inaugurar obras públicas, a economia também motivou essa explosão de licitações, na opinião de especialistas. O aumento de arrecadação estimulou os gastos públicos. As receitas de ICMS, por exemplo, aumentaram 17% em valores correntes, para R$ 126,3 bilhões no acumulado de janeiro a maio. Na União, a arrecadação de receitas federais subiu 13,3% também entre janeiro e maio de 2010.”É evidente o crescimento de licitações em ano eleitoral”, diz a diretora-superintendente da Conlicitação, Sonia Moura.

O advogado Lauro Celidônio Neto, sócio do Mattos Filho, avalia que ainda há muitos projetos a serem lançados, até porque a maioria dos editais das obras necessárias para a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016 estão atrasados. “Grandes projetos como portos, aeroportos e estradas não têm saído, exceto energia elétrica”, diz Celidônio Neto, especialista em compras do setor público.

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Nova MP flexibiliza regras do processo

Medida permite que empresas nacionais saiam vitoriosas mesmo com produto

O governo federal facilitou ainda mais as compras públicas com a publicação da Medida Provisória (MP) nº 495, divulgada na semana passada. Como toda MP, o texto terá de ser analisado pelo Congresso Nacional, que poderá alterar a proposta original do governo.

Mas, de acordo com a nova legislação desejada pelo governo, a Lei de Licitações fica alterada e passa a permitir que contratações públicas firmadas em setores de defesa nacional e nas Forças Armadas podem ser feitas sem a necessidade de licitação e durar até 10 anos.

Mas talvez a mudança mais polêmica da MP 495 é o incentivo à contratação de produtos e serviços  produzidos no Brasil. Isso porque, nas licitações, passaria a ser permitido a escolha de uma proposta com preço até 25% superior se o fornecedor for brasileiro. A faixa de variação admitida por produto ou serviço seria variável, conforme o setor de produção e a mercadoria, e o governo federal ainda teria de regulamentar.

Para a advogada Marcia Buccolo, especialista em direito público do Edgard Leite Advogados, essa mudança cria praticamente um novo regime de licitação, já que nem sempre a proposta de menor preço, como o habitual na maioria das licitações por critério de preço, passa a ser a vencedora. Bastaria a empresa ser nacional para vencer o certame com preços ligeiramente superiores ao mais barato de uma concorrente estrangeira, medida que afetaria a venda de material de escritório normalmente dominada por empresas chinesas”. “A partir da nova Medida Provisória tal conceito foi flexibilizado: a proposta de menor preço dentre todas as oferecidas poderá não ser a vencedora”, diz a advogada.

As compras governamentais já tinham sido facilitadas para obras e serviços da Olimpíada de 2016, da Copa do Mundo de 2014 e da Infraero na MP nº 489, também à espera de votação no Congresso. Essa medida admite a chamada “inversão de fases”, isto é, que primeiro o órgão público classifique as propostas por preço e só depois por documentação e capacitação técnica.

Ministério Público cria grupo de fiscalização

Para evitar que as variadas esferas de governo envolvidas realizem compras superfaturadas, como aconteceu nos Jogos Panamericanos de 2007, o Ministério Público Federal criou um grupo de 12 procuradores da república para atuar preventivamente na análise dos editais e fiscalização das compras públicas. O procurador Vinicius Panetto explicou que o grupo de trabalho deve concluir a análise das medidas provisórias nos próximos meses. “Verificamos se tem algum vício de constitucionalidade”, explicou Panetto, da Procuradoria Regional da República no Rio de Janeiro.